Ir para o conteúdo

Quando a inteligência artificial virar commodity: o que muda para os escritórios de advocacia

A inteligência artificial generativa pode se tornar tão comum e barata quanto energia elétrica. Se isso acontecer, escritórios presos a contratos caros com fornecedores especializados podem descobrir que pagam premium por algo disponível a custo marginal.

Índice

Imagine o seguinte cenário: estamos no início de 2027 e a maioria dos escritórios de advocacia e departamentos jurídicos migrou para uma ferramenta de IA jurídica oferecida diretamente pela OpenAI, por vinte dólares mensais. Privacidade garantida, verificação automática de citações, segurança reforçada. O que antes custava milhares de reais em assinaturas de ferramentas especializadas agora cabe no orçamento de um estagiário. Ficção científica? Talvez não por muito tempo.

Essa provocação foi lançada recentemente por Stephen Embry, advogado e autor do blog TechLaw Crossroads, em artigo publicado no Above the Law. A reflexão dele gira em torno de um conceito econômico que deveria tirar o sono de muitos fornecedores de tecnologia jurídica: a commoditização.

Commoditização ocorre quando um produto se torna tão comum e intercambiável que perde sua singularidade — e, com ela, seu poder de precificação. Quando isso acontece, consumidores passam a enxergar pouca diferença entre as opções disponíveis além do preço. O exemplo clássico são assentos de classe econômica em aviões: quase ninguém escolhe pela companhia aérea, mas pelo valor da passagem. O serviço é praticamente idêntico.

No universo jurídico, a commoditização já aparece em algumas áreas da tecnologia. Ferramentas que antes pareciam revolucionárias tornaram-se infraestrutura esperada. Nesse ponto, advogados deixam de perguntar "o que isso faz?" e passam a questionar "por que isso custa mais que a alternativa?".

A pergunta incômoda é: quando — não se — isso acontecerá com as ferramentas de inteligência artificial generativa voltadas para o Direito?

Embry aponta um sinal revelador. A Apple, segundo reportagem do The Information, estaria adotando uma postura cautelosa no desenvolvimento de seus próprios modelos de linguagem. A razão? Parte da liderança da empresa acredita que grandes modelos de linguagem se tornarão commodities nos próximos anos, e investir fortunas agora em modelos proprietários pode não fazer sentido estratégico. Pouco depois dessa análise, Apple e Google anunciaram parceria para uso do Gemini nos produtos de IA da Apple.

Se uma das empresas mais valiosas do mundo está apostando na commoditização dos modelos de IA, o que isso significa para os fornecedores de tecnologia jurídica que construíram seus negócios sobre essas mesmas fundações?

O mercado atual de IA jurídica opera sob algumas premissas que seus fornecedores tratam como verdades absolutas. Primeira: o setor jurídico é especializado demais, com exigências éticas, de privacidade e de precisão que sistemas abertos como ChatGPT, Claude ou Gemini simplesmente não conseguem atender. Segunda: apenas empresas especializadas possuem os dados necessários para fazer os sistemas funcionarem com a acurácia que advogados exigem. Terceira: esse fosso competitivo protege os fornecedores de ameaças externas.

O problema é que cada uma dessas premissas tem fragilidades evidentes.

Nada impede que OpenAI, Google, Anthropic ou qualquer outro grande player decida oferecer proteções robustas de privacidade e confidencialidade. Essas empresas têm recursos para licenciar ou adquirir bases de dados jurídicos, diluindo custos entre uma base de clientes muito maior. E ferramentas de verificação automática de citações — como as oferecidas pela Clearbrief — já demonstram que o problema das alucinações pode ser mitigado com camadas adicionais de checagem. No Brasil, a Jusbrasil já faz uma checagem razoável das fontes, o que pode ser encarado como um prenúncio da commoditização.

Se a OpenAI decidisse incorporar verificação automática de citações em seu produto, oferecendo-o por uma fração do preço atual das ferramentas especializadas, qual seria a reação do mercado?

Aqui essa discussão ganha contornos próprios que merecem atenção. Conforme exploramos anteriormente ao analisar o impacto da inteligência artificial no futuro da precificação jurídica, nosso mercado já enfrenta pressões significativas por eficiência e redução de custos. A commoditização das ferramentas de IA intensificaria essa pressão de forma dramática.

Escritórios brasileiros que investiram pesadamente em soluções de IA jurídica proprietárias podem acordar um dia descobrindo que pagam valores premium por funcionalidades disponíveis a custo marginal em plataformas abertas. A transição não seria difícil nem demorada — muitos advogados já utilizam ferramentas como ChatGPT e Claude no dia a dia, ainda que informalmente.

Há também uma dimensão competitiva a considerar. Grandes bancas com orçamentos robustos conseguem absorver o custo de múltiplas ferramentas especializadas. Escritórios menores, não. Se a IA jurídica se tornar commodity, essa assimetria pode se inverter: o acesso a tecnologia de ponta deixaria de ser vantagem competitiva das grandes estruturas e passaria a ser disponível para qualquer profissional com conexão à internet e disposição para aprender.

O que fazer diante desse cenário? Embry sugere algumas estratégias que fazem sentido também para o contexto brasileiro.

Primeiro, prestar atenção ao que acontece no mercado de tecnologia. Escritórios de advocacia tradicionalmente ignoram movimentações tecnológicas até que seja tarde demais. Essa postura reativa pode custar caro se a commoditização ocorrer rapidamente.

Segundo, revisar regularmente a stack tecnológica e os compromissos contratuais. Muitos escritórios estão presos a contratos de longo prazo com fornecedores de tecnologia jurídica. Esses contratos faziam sentido quando as alternativas eram limitadas. Podem se tornar âncoras se surgirem opções melhores e mais baratas.

Terceiro, evitar compromissos contratuais de longo prazo que engessem a operação. Cláusulas de rescisão, direitos de saída, portabilidade de dados — tudo isso merece atenção redobrada em um ambiente de mudança acelerada.

Quarto, manter uma estratégia de saída. Se as condições mudarem rapidamente, o escritório precisa ter clareza sobre como migrar para alternativas sem disrupção operacional significativa.

A commoditização da IA generativa não é certeza, mas também não é fantasia. Os sinais estão se acumulando. Grandes empresas de tecnologia têm recursos, incentivos e capacidade para entrar no mercado jurídico quando quiserem. A pergunta não é se conseguiriam competir com fornecedores especializados, mas se consideram o mercado atraente o suficiente para justificar o esforço.

Para advogados e gestores de escritórios, a postura prudente é a de quem observa nuvens no horizonte: pode não chover, mas vale ter um guarda-chuva por perto. Acompanhar o mercado, evitar amarras desnecessárias e manter flexibilidade operacional são medidas sensatas independentemente do cenário que se materialize.

A tecnologia que hoje parece diferencial competitivo pode, amanhã, ser tão comum quanto energia elétrica ou acesso à internet. E quando isso acontecer, a vantagem estará não em quem possui a ferramenta, mas em quem sabe usá-la com maestria para entregar valor real aos clientes.

Afinal, commodities não vencem batalhas. Estratégia, sim.

Mais recente