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Escrever como advogado sem parecer um advogado: o desafio da clareza na advocacia

A boa escrita jurídica não impressiona pelo rebuscamento — convence pela clareza. Desenvolver essa habilidade exige prática deliberada, humildade para revisar e coragem para abandonar o juridiquês que aprendemos a venerar.

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Todo advogado que leva a sério sua profissão já passou por aquele momento desconfortável: reler um texto próprio e perceber que algo não funciona. A frase parece rígida, o argumento se perde em meio a qualificações excessivas, o tom soa distante. Essa sensação incômoda é, na verdade, um bom sinal — indica que existe espaço para crescimento. E aqui está uma verdade libertadora: ninguém nasce sabendo escrever bem. A redação é uma competência que se desenvolve com prática deliberada.

Frank Ramos, advogado e sócio da Goldberg Segalla em Miami, abordou recentemente esse tema com uma provocação certeira: o trabalho do advogado não é parecer advogado. É ajudar o leitor a decidir. Essa inversão de perspectiva merece atenção cuidadosa dos profissionais brasileiros.

O que prejudica a maioria dos textos jurídicos não é falta de conhecimento técnico. É uma confusão de propósitos. Muitos profissionais escrevem pensando em como serão percebidos, não em como serão compreendidos. Querem demonstrar erudição, cobrir todas as hipóteses, blindar-se contra críticas. O produto final acaba sendo um texto tecnicamente defensável, mas que falha no essencial: comunicar.

A cultura jurídica brasileira agrava esse problema. Herdamos do bacharelismo português uma admiração pelo texto ornamentado. Durante gerações, petições extensas e linguagem rebuscada foram interpretadas como marcas de competência. Quem escrevia de forma direta arriscava parecer despreparado — como se complexidade fosse mérito e simplicidade, defeito.

Esse cenário começa a mudar por pressão de todos os lados. Juízes afogados em processos não conseguem dedicar atenção a peças intermináveis. Empresas acostumadas com a objetividade do mundo corporativo questionam pareceres que exigem decodificação. Jovens advogados, criados em ambientes digitais onde a concisão é valorizada, estranham convenções que seus mentores nunca questionaram.

Escrever com clareza é, no fundo, uma demonstração de respeito pelo tempo alheio. Quando você se esforça para ser compreendido, está dizendo ao leitor que seu tempo importa. Textos opacos transmitem a mensagem oposta: decifre-me se for capaz. A verdadeira clareza não significa simplificar excessivamente ou subestimar a inteligência do destinatário. Significa assumir o trabalho árduo de organizar o pensamento para que o outro não precise fazê-lo.

Conforme já exploramos ao discutir as virtudes que um advogado deve cultivar, a excelência profissional vai muito além do conhecimento técnico. A capacidade de comunicar ideias complexas de forma acessível é uma dessas virtudes frequentemente subestimadas — e a escrita é seu principal veículo.

Antes de começar qualquer texto, três perguntas ajudam a direcionar o esforço: qual é a mensagem principal? Por onde o leitor deve começar a entender o problema? Que premissas ele precisa aceitar para concordar com minha conclusão? Peças bem construídas seguem uma lógica semelhante à de uma boa sustentação oral: apresentam o tema, estabelecem um roteiro e desenvolvem cada ponto com evidências.

Muitos profissionais confundem pesquisa com preparação para escrever. Acumulam precedentes, mantêm dezenas de abas abertas, releem doutrina — e quando finalmente começam a redigir, produzem páginas que nunca chegam ao destino pretendido. Em algum momento, é preciso aceitar que a pesquisa terminou e que chegou a hora de colocar ideias no papel. A primeira versão não precisa ser boa. Aliás, esperar perfeição no rascunho inicial é uma forma de procrastinação. O objetivo do primeiro esboço é registrar o pensamento. O trabalho de qualidade vem depois, na revisão.

A diferença entre redatores medianos e excelentes raramente está no talento natural. Está na disposição para reescrever. Quem produz textos memoráveis não acerta de primeira — aceita que formulações iniciais precisam ser cortadas, reorganizadas, simplificadas. Desenvolver essa capacidade exige desapego: a frase que levou vinte minutos para ser construída pode precisar ser eliminada se não contribuir para o argumento.

Uma mudança de perspectiva ajuda nesse processo: encarar correções como informação, não como julgamento pessoal. Quando um colega mais experiente devolve um texto cheio de marcações, isso não significa incompetência. Significa aprendizado em andamento. Os únicos que não recebem críticas são os que não produzem nada.

Estudar as correções recebidas revela padrões úteis. A conclusão está aparecendo tarde demais? As ressalvas estão enfraquecendo o argumento? O texto está explicando o que já é óbvio? Essas tendências, uma vez identificadas, podem ser corrigidas conscientemente nos próximos trabalhos.

Brevidade exige mais esforço que extensão. A maioria dos advogados escreve demais porque parece mais seguro — mais palavras dão a impressão de maior proteção, mais ressalvas parecem reduzir riscos. Na prática, cada frase desnecessária é uma oportunidade para o leitor perder o interesse. Persuasão eficiente trabalha com economia.

Para Frank Ramos, um método simples transforma a qualidade dos textos: ao terminar um rascunho, tentar cortar quinze por cento sem perder conteúdo relevante. Depois, cortar mais dez. O resultado costuma surpreender. Preâmbulos rituais, advérbios que nada acrescentam, frases em voz passiva que diluem responsabilidades, expressões como "conforme amplamente reconhecido" — tudo isso pode desaparecer sem prejuízo. Escreva como se cada palavra tivesse custo.

O vocabulário rebuscado é outro vício a ser abandonado. "Usar" funciona tão bem quanto "utilizar". "Antes" comunica o mesmo que "anteriormente". "Contra" é mais direto que "em face de". Palavras pomposas criam distância entre autor e leitor. Palavras simples constroem confiança.

Essa preocupação com acessibilidade importa especialmente na comunicação com clientes. Alguém que procura um advogado geralmente está preocupado, às vezes assustado. Essa pessoa não deveria precisar de tradução para entender o que está acontecendo com seu caso. Linguagem simples, nesse contexto, é empatia traduzida em texto.

Para evoluir de forma consistente, trate a escrita como qualquer habilidade que requer prática regular. Alguns exercícios ajudam: reescrever periodicamente algo que você já produziu, buscando cortar e esclarecer; redigir textos curtos sobre temas que você domina, sem recorrer a citações, como se explicasse para alguém inteligente mas leigo; analisar textos de autores que você admira, não para copiar, mas para entender como constroem ritmo e estrutura.

O passo que a maioria ignora é a reflexão posterior. Revisar o que funcionou, identificar o que não funcionou, planejar ajustes para a próxima vez. Melhoria real vem dessa análise sistemática, não da esperança de que a prática por si só resolva os problemas.

Desenvolver uma voz própria não significa adotar um tom dramático ou pessoal demais. Significa escrever com autenticidade — com convicção nas posições defendidas, especificidade nos argumentos, franqueza nas conclusões. O tom se adapta ao contexto: firme quando dirigido à parte contrária, estável e reconfortante quando dirigido ao cliente, confiante e organizado quando dirigido ao juiz.

Ainda para Frank Ramos, é comum que advogados em início de carreira se sintam ficando para trás. Mas a maioria dos profissionais estabelecidos nunca trabalha intencionalmente para melhorar sua redação. Produzem textos por anos esperando que a qualidade melhore por conta própria. Não melhora. Quem decide investir tempo em exercícios deliberados de escrita ganha uma vantagem competitiva real. Em pouco tempo, passa a ser a pessoa para quem os outros pedem ajuda na revisão de textos importantes.

A capacidade de escrever bem funciona como multiplicador na advocacia. É o instrumento da persuasão, o veículo da liderança, a forma de construir credibilidade mesmo quando você não está presente. Não espere condições ideais para começar. Escreva, reescreva, corte, clarifique. E continue, especialmente quando o resultado parecer insatisfatório. É justamente aí que o trabalho mais importante acontece.

Referência: As reflexões deste texto foram inspiradas por ideias de Frank Ramos, publicadas no site Above the Law.

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