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A inteligência artificial e o paradoxo da produtividade na advocacia: mais eficiência, mais exaustão?

A promessa da IA de aliviar a carga de trabalho na advocacia colide com uma realidade inesperada: a intensificação das rotinas, o aumento da pressão e o risco crescente de burnout.

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A advocacia brasileira vive sob a promessa de uma revolução iminente, impulsionada pela inteligência artificial. Ferramentas que automatizam a redação de peças, analisam volumes massivos de jurisprudência e otimizam a gestão de processos são vendidas como a solução para um dos problemas mais crônicos da profissão: a sobrecarga de trabalho. A expectativa é clara: a IA nos libertará das tarefas repetitivas, permitindo que foquemos em atividades de maior valor agregado. Contudo, um estudo recente da Harvard Business Review, conduzido por Aruna Ranganathan e Xingqi Maggie Ye, lança uma luz inesperada e preocupante sobre essa narrativa otimista. A pesquisa, intitulada "AI Doesn’t Reduce Work—It Intensifies It", sugere que, em vez de reduzir, a IA pode intensificar o trabalho, criando um paradoxo de produtividade que a advocacia precisa discutir urgentemente.

O estudo observou, ao longo de oito meses, como a adoção de ferramentas de IA generativa transformou os hábitos de trabalho em uma empresa de tecnologia. Os resultados, embora obtidos em um ambiente corporativo distinto do jurídico, ecoam uma realidade que já se desenha nos escritórios de advocacia mais inovadores. Os pesquisadores identificaram três formas principais de intensificação do trabalho: a expansão de tarefas, a diluição das fronteiras entre trabalho e vida pessoal e o aumento do multitasking. Funcionários, sentindo-se "empoderados" pela IA, começaram a assumir responsabilidades que antes pertenciam a outros, a preencher pausas com "só mais um prompt" e a gerenciar múltiplas frentes de trabalho simultaneamente. O que à primeira vista parece um ganho de produtividade, com o tempo, revela-se uma armadilha que leva à fadiga cognitiva, ao esgotamento e, em última instância, ao burnout.

"O que parece maior produtividade no curto prazo pode mascarar um aumento silencioso da carga de trabalho e uma crescente tensão cognitiva, à medida que os funcionários assumem múltiplos fluxos de trabalho habilitados por IA. Com o tempo, o excesso de trabalho pode prejudicar o julgamento, aumentar a probabilidade de erros e tornar mais difícil para as organizações distinguir ganhos genuínos de produtividade de uma intensidade insustentável." [1]

Transportar essa análise para o contexto da advocacia brasileira é um exercício de reflexão crítica. A profissão, já marcada por uma cultura de longas jornadas e alta pressão, encontra na IA uma ferramenta de potencial ambíguo. Se, por um lado, a tecnologia pode de fato acelerar a produção de uma petição inicial ou a revisão de um contrato, por outro, ela pode criar a expectativa de que o advogado esteja disponível para produzir mais, em menos tempo, a qualquer hora. A facilidade de "começar uma tarefa" com a ajuda de um assistente de IA pode transformar o intervalo do almoço em uma sessão de pesquisa jurisprudencial e a noite de descanso em uma maratona de redação de minutas. A fronteira entre o escritório e o lar, já tão tênue para muitos advogados, torna-se ainda mais porosa.

Essa intensificação do trabalho não é um fenômeno novo para a advocacia brasileira. Dados anteriores à popularização da IA generativa já pintavam um quadro alarmante. Uma pesquisa da Bloomberg Law apontou que 52% dos advogados nos EUA experimentaram burnout com frequência [2]. No Brasil, a situação é igualmente preocupante. Segundo um artigo do portal Migalhas, cerca de 30% dos afastamentos médicos na advocacia estão ligados a transtornos mentais, e a OAB já instituiu um Plano Nacional de Saúde Mental para lidar com a questão [2]. A IA, nesse cenário, pode atuar como um catalisador, acelerando um processo de esgotamento que já estava em curso. A pressão por uma produtividade cada vez maior, agora turbinada pela tecnologia, pode levar a um aumento nos casos de burnout, ansiedade e depressão, comprometendo não apenas o bem-estar dos profissionais, mas também a qualidade do serviço jurídico prestado.

O estudo da HBR propõe uma solução que, embora focada no ambiente corporativo, oferece insights valiosos para a gestão de escritórios de advocacia: a criação de uma "prática de IA" (AI practice). Trata-se de um conjunto de normas e rotinas intencionais que estruturam como a tecnologia é utilizada. Isso inclui a implementação de "pausas deliberadas" para reflexão e análise crítica, o "sequenciamento" do trabalho para evitar a fragmentação da atenção e a valorização da "ancoragem humana", ou seja, a proteção de tempo e espaço para a conexão e o diálogo entre as pessoas. Para a advocacia, isso se traduz em uma necessidade de repensar a cultura de trabalho. Não basta adotar a tecnologia; é preciso criar um ambiente que promova seu uso de forma sustentável.

Isso significa, por exemplo, estabelecer limites claros para o uso de ferramentas de IA fora do horário de expediente, incentivar pausas para a recuperação cognitiva e promover a colaboração humana como um contraponto à interação solitária com a máquina. A gestão dos escritórios tem um papel fundamental em liderar essa mudança, evitando que a busca por eficiência se sobreponha ao bem-estar de suas equipes. Como já discutido em nosso post sobre o fim da hora faturável, a transição para modelos de precificação baseados em valor, e não em tempo, pode ser um passo importante nessa direção, alinhando os incentivos do escritório com a entrega de resultados de qualidade, e não com a mera quantidade de horas trabalhadas.

A questão, portanto, não é se a IA vai transformar a advocacia, mas como vamos gerenciar essa transformação. A tecnologia, por si só, é neutra. Ela pode ser uma ferramenta de libertação ou de intensificação do trabalho, a depender de como a utilizamos. A reflexão proposta pela Harvard Business Review é um alerta para que a advocacia não adote a IA de forma acrítica, seduzida apenas pela promessa de ganhos de produtividade. É preciso construir, de forma consciente e deliberada, uma cultura de trabalho que coloque o bem-estar e a saúde mental dos advogados no centro da estratégia, garantindo que a tecnologia sirva ao propósito de uma advocacia mais eficiente, sim, mas também mais humana e sustentável. Afinal, como bem sabemos, a complexa arte de precificar o serviço jurídico envolve muito mais do que a simples contagem de horas; envolve a valorização do intelecto, da estratégia e da saúde de quem o pratica.

Referências

[1] Ranganathan, A., & Ye, X. M. (2026, 9 de fevereiro). AI Doesn’t Reduce Work—It Intensifies It. Harvard Business Review. Recuperado de https://hbr.org/2026/02/ai-doesnt-reduce-work-it-intensifies-it

[2] Antunes, F. (2025, 29 de agosto). O silenciador de carreiras na advocacia. Migalhas. Recuperado de https://www.migalhas.com.br/depeso/438732/o-silenciador-de-carreiras-na-advocacia

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