Índice
Existe uma lacuna silenciosa na formação dos advogados brasileiros. Não está nos currículos das faculdades, não aparece nas provas da OAB, e raramente é mencionada nas entrevistas de emprego em escritórios. Mas ela existe, e quem a ignora compromete sua carreira de formas que só perceberá anos depois. Falo da experiência prática em audiências e julgamentos. E, em especial, a experiência no tribunal do júri.
No Brasil, diferentemente de outros países, o tribunal do júri é reservado exclusivamente para crimes dolosos contra a vida: homicídio, infanticídio, aborto e instigação ao suicídio. Isso significa que a grande maioria dos advogados jamais terá a oportunidade de participar de um julgamento com jurados. Mas seria um erro grave concluir que, por isso, a experiência de julgamento é irrelevante para quem atua em outras áreas. Pelo contrário: as habilidades desenvolvidas no ambiente de audiência são precisamente aquelas que distinguem o advogado mediano do advogado excelente, independentemente da especialidade.
Além disso, audiências trabalhistas, cíveis, de família, de execução fiscal, administrativas — todas elas exigem do advogado algo que nenhum livro ensina: a capacidade de pensar e decidir em tempo real, sob pressão, diante de variáveis imprevisíveis. É ali, naquele ambiente controlado mas imprevisível, que se aprende a ler pessoas, não apenas processos. É ali que se descobre a diferença entre um argumento que convence no papel e um argumento que convence um juiz de carne e osso.
A realidade, porém, é que poucos advogados jovens têm acesso a essa formação. Os processos se resolvem por acordo antes da audiência. Os clientes preferem evitar o risco do julgamento. Os escritórios, preocupados com custos e eficiência, delegam as audiências mais simples a correspondentes ou advogados menos experientes. E assim, o jovem que sonha com a advocacia contenciosa vê os anos passarem sem nunca ter sustentado oralmente uma tese, interrogado uma testemunha ou enfrentado um juiz em momento de tensão.
Não se trata de romantizar o tribunal. Audiências são estressantes, imprevisíveis e frequentemente frustrantes. Mas é precisamente esse desconforto que as torna formadoras. Quando você está diante de um juiz que claramente discorda da sua tese, ou quando uma testemunha dá um depoimento inesperado que ameaça seu caso, não há tempo para consultar doutrina ou pedir opinião a um colega. Você precisa reagir. E essa capacidade de reação, cultivada através de repetição e exposição, é o que separa advogados que apenas conhecem o direito daqueles que sabem praticá-lo.
Se você é um advogado jovem que deseja desenvolver essa competência, precisa entender que ninguém vai entregá-la de presente. As oportunidades existem, mas precisam ser buscadas, às vezes criadas. A primeira lição é parar de esperar pelo caso perfeito ou pela audiência importante. Comece pequeno. Cubra audiências de rotina que ninguém quer fazer. Ofereça-se para acompanhar colegas mais experientes. Diga sim quando perguntarem se você está disponível para uma audiência de última hora, mesmo que o tema não seja sua especialidade.
Esses primeiros passos parecem insignificantes, mas são fundamentais. Juízes notam quem aparece preparado. Sócios notam quem não entra em pânico. E a confiança se constrói aos poucos, audiência após audiência, até que um dia você percebe que aquilo que antes parecia assustador tornou-se natural.
Há também caminhos menos óbvios. Muitos advogados desconhecem as oportunidades oferecidas por tribunais de pequenas causas, varas de família em regime de mutirão, ou audiências de conciliação nos CEJUSCs. Esses ambientes são verdadeiras academias de prática jurídica: os casos são mais simples, o ambiente é menos formal, e há mais tolerância para o aprendizado. Se você encara essas oportunidades como "menores", está cometendo o mesmo erro do músico que recusa tocar em bares pequenos porque sonha com grandes palcos. Os grandes palcos são conquistados nos pequenos.
A advocacia pro bono oferece outra via de acesso à experiência prática. Organizações como a virtude essencial do advogado — a disposição para servir — encontra expressão concreta quando você aceita defender gratuitamente quem não pode pagar. E frequentemente esses casos, justamente por serem menos complexos ou menos rentáveis, chegam mais rápido à audiência. Enquanto o grande processo empresarial se arrasta por anos em discussões preliminares, o caso pro bono pode colocá-lo diante de um juiz em semanas.
Mas não basta estar presente. Preparação é o ingrediente que transforma presença em competência. O nervosismo que paralisa advogados em audiência raramente vem da falta de talento, e sim da falta de preparo. Quando você conhece o processo em profundidade, quando antecipou as perguntas difíceis, quando ensaiou sua sustentação em voz alta, o medo perde espaço para a concentração. Não desaparece completamente, mas deixa de comandar.
Uma técnica que poucos utilizam é a observação sistemática. Antes de fazer suas próprias audiências, assista às audiências dos outros. Sente-se na plateia do fórum e observe como diferentes advogados se comportam. Note o que funciona e o que não funciona. Perceba como os juízes reagem a diferentes estilos de argumentação. Esse aprendizado observacional é frequentemente subestimado, porém é de grande relevância. Você pode aprender tanto com os erros alheios quanto com seus próprios e com muito menos custo.
A escolha do ambiente de trabalho também importa. Se experiência prática é prioridade para você, isso deve influenciar onde você decide trabalhar. Grandes escritórios oferecem sofisticação e grandes casos, mas frequentemente confinam advogados jovens a tarefas de pesquisa e revisão documental por anos. Escritórios menores, por outro lado, costumam jogar seus advogados na água mais cedo. O desafio é encontrar o equilíbrio: um ambiente que ofereça tanto suporte quanto exposição, tanto mentoria quanto autonomia.
Mentores são cruciais nesse percurso. Nem todo litigante é um bom professor de audiência. Alguns advogados são tecnicamente brilhantes nos autos mas medíocres no tribunal. Outros dominam a performance mas negligenciam a preparação. O mentor ideal é aquele que combina competência prática com disposição para ensinar e isso é mais raro do que parece. Quando você encontrar alguém assim, valorize essa relação. Pergunte se pode acompanhá-lo. Peça feedback depois das audiências. Observe como ele se prepara, não apenas como ele atua.
Há uma dimensão da experiência de audiência que transcende a técnica: a formação do caráter profissional. No tribunal, você aprende a conviver com a incerteza, com a vitória e com a derrota. Aprende que nem sempre o melhor argumento prevalece, e que isso não é motivo para cinismo, e sim motivo para persistência. Aprender a respeitar adversários, a manter a compostura sob provocação, a defender clientes mesmo quando discorda de suas escolhas. Essas lições não se ensinam em sala de aula. Elas são absorvidas, lentamente, através da prática repetida.
Advogados que nunca desenvolvem essa experiência carregam uma fragilidade invisível. Podem ser excelentes consultores, pareceristas, negociadores. Mas quando o conflito escala, quando a negociação falha, quando o cliente precisa de alguém que saiba lutar, esses advogados ficam paralisados. E nesse momento, o advogado que cultivou a experiência de audiência — mesmo que em casos pequenos, mesmo que em varas sem prestígio — terá uma vantagem decisiva.
O sistema jurídico brasileiro, como qualquer sistema, tem suas particularidades. Não temos a tradição americana de julgamentos com júri em casos cíveis. Nosso processo é mais escrito, mais burocrático, mais mediado por recursos e procedimentos. Mas isso não elimina a importância da atuação presencial. As audiências de instrução, as sustentações orais em tribunais, as sessões de conciliação: todos esses momentos exigem habilidades que só se desenvolvem fazendo.
Para o advogado jovem que lê este texto, o recado é simples: não espere. A experiência que você precisa não virá até você; você precisa ir até ela. Diga sim às oportunidades que parecem pequenas. Prepare-se obsessivamente para cada audiência, por menor que seja. Observe outros advogados. Busque mentores. Aceite que vai errar, e que errar é parte do aprendizado. E, sobretudo, entenda que essa competência — a capacidade de atuar sob pressão, em tempo real, diante do imprevisível — é o que distinguirá sua carreira daqui a vinte anos.
Fonte: How Young Lawyers Get Trial Experience (And Why It Still Matters), por Frank Ramos, publicado no Above the Law.